Entrevista com Tiago Mitraud — Harvard, cultura e sentimento de dono

Por liderar uma empresa que cresce tão rápido, certamente você já passou (e ainda passa) por momentos de alta pressão e ansiedade. Você tem um processo para conseguir lidar com isso? E como fez para evoluir essa habilidade desde o nascimento da empresa?

Olha, eu confesso que é um ambiente de pressão, por ter metas, muitas horas de trabalho e um ritmo de crescimento acelerado. Mas acho que nunca sofri com ansiedade ou pressão, até porque esse ambiente intenso esta bem alinhado com a forma que eu gosto de trabalhar.

Antes de entrar eu já sabia com que tipo de pessoas passaria a conviver, e já tinha um pouco dessas características. Não foi algo muito extenuante ou que eu me sentisse contrariado. Era um ritmo de trabalho que já estava acostumado.

E para ficar mais tranquilo, possuímos uma certa flexibilidade na empresa. Não é necessário batermos cartão todo dia em uma determinada hora, por exemplo. Quando há um feriado, nós emendamos, caso precise viajar e se torne necessário ir no meio da semana, eu consigo um dia de folga. Algumas questões acabam ajudando a balancear o ritmo do dia-a-dia da empresa, para não viver apenas em função do trabalho.

Existem momentos em que você acha que não conseguirá realizar uma determinada meta?

Após ela ser definida no começo do ano, não. Nós participamos do projeto de definição das metas e buscamos objetivos audaciosos e desafiadores, que acreditamos serem possíveis de alcançar. E como participamos do processo, o comprometimento é nosso.

Mas caso eu não consiga entregar, não virá alguém falar comigo e me colocar sobre pressão. Eu tenho um compromisso com aquela meta que foi estabelecida por mim mesmo.

O que você absorveu da cultura AmBev? E quais os maiores aprendizados?

O foco em alcançar objetivos maiores. Nunca nos conformamos com o que já conquistamos. Sempre usamos métricas em tudo o que é feito para obter um resultado objetivo do trabalho. Assim conseguiremos medir e melhorar os pontos falhos.

A ambição e o foco na gestão são os dois principais aprendizados.

Qual o comportamento mais valorizado de um funcionário a ponto de influenciar a contratação ou promoção?

Acho que o chamado ‘’sentimento de dono‘’. Quando a pessoa de fato se apropria da organização, assumindo a responsabilidade e não terceiriza a culpa.

Vocês lidam com muitos jovens, sendo a base e premissa de vocês. Qual característica dessa geração que está entrando no mercado de trabalho agora? Quais características são positivas e quais são prejudiciais?

Até pelo ambiente que estamos, as pessoas fazem uma convergência da vida e do trabalho muito bem. Em geral as pessoas que buscam trabalhar na Estudar não enxergam apenas como um emprego, elas vêem um objetivo pessoal no resultado final do trabalho.

Essa busca por fazer algo maior, por um propósito, é o que vemos na turma que trabalham conosco. Por outro lado, a característica que é mais prejudicial é justamente o oposto do que falei que valorizo, sobre o baixo sentimento de dono nas pessoas de modo geral.

No processo de seleção como você faz para identificar se a pessoa tem esse sentimento de dono?

É muito baseado nas experiências anteriores, em algum estágio ou em projetos anteriores. Perguntando como foi a experiência durante o período em que passou, se ela falar ‘’ ah, não sei’’, você percebe que ela apenas fez, sem nenhum aprendizado.

A partir do momento que ela fala de um resultado alcançado, pergunto qual foi o seu papel e maiores conquistas obtidas por ela, consegue-se ver se a pessoa apenas fez parte de um grupo bem sucedido ou se se comprometeu de verdade com aquilo, baseado nas situações que ocorreram e de seu comportamento para chegar em determinado objetivo.

Quando percebemos que o candidato busca desculpas para justificar o motivo de não bater as metas, observa-se que a pessoa exige demais e se compromete de menos. Assim, conseguimos ver que o comprometimento dela não é tão bom quanto poderia ser. Com isso, entendemos que ela não possui o sentimento de dono, de trazer a responsabilidade para si.

Qual tipo de situação do dia-a-dia que você sente que mais impacta sua performance de modo geral? (Como problemas de família, ansiedade, estresse, problemas com funcionário e situações financeiras)

Acho que são mais as questões internas da organização. Problemas mais subjetivos e que envolvem respostas menos óbvias são mais difíceis de se resolver de forma fácil e rápida.

Um exemplo é conversa de corredor na empresa. É um tipo de problema que me deixa irritado facilmente por não haver uma resposta objetiva e simples. Não é como não estar vendendo o suficiente, para isso há um processo a ser seguido, que pode ser feito para resolver a situação.

Você fez o programa de liderança de Harvard. O que foi que você aprendeu e ouviu de diferente?

Experiência Acadêmica em Harvard

Tem esse nome mas é também um pouco de MBA executivo. Tive muitas matérias de negociação, finanças, marketing, administração em geral. Houve também uma parte mais soft, que é um programa chamado ALD — Authentic Leadership Devil.

Foi um momento bom de reflexão do meu eu. Às vezes entramos em um ritmo acelerado e não pensamos como estamos e de onde queremos chegar, de nossos planos futuros. Houve um aprendizado muito técnico de muitas coisas que eu não tinha conhecimento, como cases e técnicas de gestão. Foi um período de reflexão guiada sobre o meu processo de liderança.

Quanto tempo você ficou lá?

Lá no campus foram 6 semanas.

Quais os erros mais comuns que você vê líderes inexperientes cometendo? (inclusive que você mesmo pode ter cometido)

Acho que não saber balancear, não dar a devida importância às demandas das pessoas e o objetivo final da organização. Sou muito prático e objetivo, então às vezes estou mais focado em entregar resultados, fazer o que tem de ser feito, do que perceber se as pessoas estão satisfeitas e estão tendo as experiências que elas gostariam.

Nossas conversas com o time eram muito focadas mais no que tinha que ser feito e menos nas pessoas. Depois de um tempo percebi que as pessoas tinham uma necessidade de falar de si mesmo, de suas angústias e dificuldades que estão passando. 

Vejo que outras pessoas também fazem isso, não dão tanta importância para a questão mais pessoal ao longo do trabalho.

Custei a dar importância e valorizar esses momentos. Não digo que eu faço isso bem hoje, mas reservo um tempo apenas para isso. Entretanto, na Estudar, eu confesso que vejo o oposto, às vezes as pessoas dão muita importância para o pessoal e acabam esquecendo de entregar resultados. Ocasionalmente as pessoas tem essa dificuldade de balancear o fato de você ser um líder, gestor, e ao mesmo tempo ser amigo.

Que conselho você daria para quem está em uma posição de liderança pela primeira vez?

A partir desse momento você só conseguirá atingir resultados através dos outros, e não por você mesmo. Deve se encontrar um caminho para atingir os mesmos resultados, ou melhores através dos outros.

O melhor caminho para atingir seus resultados

O que te leva na posição de líder muitas vezes é que você é muito bom na execução. Agora não basta fazer apenas o que fazia antes, precisa assumir o controle de toda a entrega e achar a melhor forma de executá-la com o time.

E quais seriam as maiores referências para você nesse assunto?

Gosto muito de ler ‘’quem está fazendo’’. Não tenho uma referência teórica muito forte, mas gosto de ver sobre pessoas que foram bem sucedidas em fazer aquilo que fizeram. Alguns clássicos de Sam Walton, Jack Welch. São biografias que eles escreveram e que gostei muito.

Mas tem um mais recente que é o Extreme Ownership. É um livro muito legal. Lá tem coisas que eu já acreditava e ali me deram um embasamento teórico. Porém havia algumas coisas que eu não via na profundidade que eles trouxeram, na importância do indivíduo, no resultado das equipes. Essa é uma leitura que eu recomendo.

Você já fez algum tipo de terapia ou Coach?

Terapia não, mas tive um Coach na época em que virei diretor da Estudar, que foi por um período de 6 meses. Foi muito bom, me agregou muito, mas infelizmente já tem muito tempo isso, uns dois anos e meio.

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Mariângela Guerra

Mariângela Guerra

Psicóloga especializada em ansiedade com objetivo de ajudar profissionais ambiciosos a lidarem com alta pressão e aumentarem seu desempenho profissional.

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