Entrevista com Alfredo Soares —ego, público, centralização e resiliência X insistência

Alfredo Soares é fundador da plataforma de lojas virtuais Xtech Commerce. Com mais de 40 mil lojas criadas a plataforma transaciona R$ 250 milhões por ano. Soares é também palestrante e sócio investidor na startup Socialrocket.

Recentemente a Xtech foi vendida para a VTEX por R$14 milhões.

Alfredo, por você liderar uma empresa que cresce tão rápido, certamente você já passou, e ainda passa, por momentos de alta pressão e ansiedade. Você tem um processo para que conseguir lidar com isso? Como fez para evoluir essa habilidade desde o nascimento da Xtech?

O básico praticamente todos sabem: se alimentar bem, fazer exercícios, ter uma rotina, etc. Mas durante este processo, por ter muitos altos e baixo, é preciso aprender a administrar “o básico”. Principalmente a administrar as crises e potencializar as oportunidades. É preciso saber surfar os momentos.

Tem uma analogia que eu costumo fazer com frequência: que empreender é como o surf. É preciso saber escolher a melhor onda e saber se manter em pé quando a estiver surfando. Tem um pouco disto e um pouco de estar perto das pessoas certas. Digo, uma das coisas que mais me ajuda a controlar ansiedade são as pessoas com quem eu convivo.

Eu comecei a Xtech no Rio, onde ainda fica a sede, mas comecei a ir para São Paulo para conviver com pessoas (empreendedores, mentores, investidores…) que estivessem num nível acima do meu. Pessoas melhores, mais experientes, que já estiveram e já passaram pelo que eu estava vivendo.

Eram ou mentores ou amigos mesmo. Ao conversar e conviver com eles, eu comecei a perceber que muitos dos meus maiores problemas não eram exclusivos meus: eles já os haviam superado. Saber que meus desafios eram normal daquele momento que eu estava vivendo era bem tranquilizador. Essa convivência me ajudava a abaixar a ansiedade.

Outra coisa que me tranquilizava muito eram estudos de casos. Buscar cases e tomar por exemplo outras empresas e pessoas fizeram pra sair de situações difíceis contribui muito para a geração de insights mas principalmente para aliviar a tensão e o estresses nestes momentos.

E você considera que tem um bom equilíbrio pessoal e emocional?

Princípio taoista de energias opostas Yin Yang
Yin Yang: princípio de energias opostas da filosofia chinesa

É engraçado falar sobre equilíbrio porque eu tenho uma tatuagem nas costas exatamente sobre isso. Tenho tatuado o símbolo Yin, do Yin Yang, desde meus 23 anos.

Na verdade é o Yin com duas asas, que significa que ao alcançar o equilíbrio, não há mais limites e nada mais te impede. Eu mesmo desenhei.

Mas, apesar de valorizar e buscar o equilíbrio, eu não o encontrei ainda. Não me considero equilibrado.

Hoje, isso é talvez um dos meus grandes ponto fracos. Toda a minha vida, minha história, minha trajetória até os 30 anos foram marcadas por altos e baixos… E essa falta de constância é bem desgastante, até fisicamente. Mesmo tendo conseguido acelerar bastante meu desenvolvimento até aqui, não deixa de ser desgastante.

Eu fui atleta de polo-aquático, jogava na seleção brasileira e treinava quatro horas por dia, então tenho o metabolismo muito alto. Por isso eu me sindo muito bem quando estou magro. Mas eu engordo, paro de me cuidar, começo a namorar e caio de novo nesse ciclo de oscilações.

Outro ponto que ajuda bastante é ter uma pessoa certa ao seu lado para acompanhar a fase que você está. Só é muito difícil achar essa pessoa, já que para quem está a frente de empresas que crescem muito rápido trata-se de uma fase de muito trabalho e estresse. É difícil encontrar alguém que entenda e aceite esse ritmo.

Alguém com a mesma cabeça.

Exatamente… Até porque o meu ponto de equilíbrio seria uma pessoa calma. Contudo uma pessoa calma não conseguiria acompanhar esse ritmo.

Como você lida com o fracasso e o medo? Você sente que evoluiu este aspecto desde que começou a empreender?

Eu acho que para qualquer empreendedor o medo é um fator motivante. O medo na verdade é um estimulante e o fracasso um competidor. Este, mais especificamente, está sempre por perto. Basta se descuidar para ele te vencer. Para mim todo empreendedor está sempre correndo; todo empreendedor participa de duas corridas: uma da meta financeira contra e outra da meta profissional. E corre não só contra o tempo mas contra o fracasso também.

Necessariamente elas andam juntas?

Não, elas não andam juntas. É pouco provável, na verdade. Se pegarmos o exemplo do Tallis Gomes, do Singu, é possível que o nível de sucesso que ele tem hoje não é condizente com a meta financeira dele. Era para ele estar talvez dez vezes melhor do que está financeiramente. Isso se for colocar em proporção o que ele conquistou versus o que ele estipulou para si. Isso tem bastante a ver com o ego empreendedor.

O ego, o esforço, o resultado grande…

Então, é muito difícil acompanhar e administrar isso. Mesmo porque o ego pode ser o maior vilão nessa trajetória. Mas tem mais a ver com mindset do que com resultados expressivos. Não há dúvidas que há pessoas com resultados cem vezes maiores e com o ego dez vezes menor, por causa dessa mudança de mindset. Ter isso em mente é o mais importante.

Mas ter o ego controlado não é sinônimo de ser compassivo ou menos competitivo. Se você pegar os empreendedores realmente mais agressivos, eles têm muito esta questão da competitividade. Você pega as startups que mais crescem, muitas delas tem competidores frenéticos ou concorrentes rivais. Há sempre uma competitividade por trás, e isso acaba instigando e motivando a atingir resultados cada vez maiores. É quase automático o empreendedor incorporar este comportamento para ele e se tornando competitivo com tudo na sua vida.

Competitividade entre empreendedores

No fim, o seu maior competidor é você mesmo…

Sim, não tem jeito. Seja com seu próprio peso, seja com seu próprio ego ou mesmo com a frustração de ainda não ter alcançado as metas que estipulou para você mesmo, é sempre você o pior rival. E normalmente essa competitividade consigo mesmo, a vontade de fazer melhor e mais rápido, surge com questões que são só pequenos detalhes, mas que para você se torna uma guerra.

Um exemplo prático disso é algo que eu estive pensando esses dias, e que é engraçado para caralho. Hoje eu posso me dizer com tranquilidade um cara realizado profissionalmente. Mas não significa que eu não tenha novas metas. Uma delas é o meu sonho de imprensa: sair na capa de uma revista. Vira e mexe eu me pego questionando: “como foi que eu ainda não saí em revista nenhuma?” Seria incrível poder dizer para o meu filho um dia “Seu pai foi capa de revista.”

É engraçado porque não tem a ver com holofote. É realmente uma cisma com revista. Eu já dei entrevista e palestra em quase todos os lugares que eu quis, até já dei exit em uma empresa, mas essa questão da capa de revista continua me assombrando à noite. Aí começo a ver vários amigos saindo em capas e começo a nutrir uma competição interna, algo quase só para mim mesmo e que me motiva muito.

E honestamente, venhamos e convenhamos, isso é só uma parte muito pequena do todo….

Sim! Não é nada! É quase um capricho.

De onde você tira energia e resiliência para fazer o seu negócio funcionar?

Eu tive um exemplo muito forte em casa. Meu pai foi diretor operacional de uma empresa de transporte de valores de segurança. Sempre vi meu pai lidar com muita gente, com muitos funcionários e com muitos problemas.

Eu convivia com um cara que sempre levava trabalho para casa, então não tinha como eu não ser uma extensão dele. Ter um cara desses em casa ensina a ter comportamentos não só de liderança mas de gestão de problemas e resiliência.

Em paralelo a isso, eu sempre fui atleta. No esporte você é treinado ou para começar ganhando ou para virar o jogo. E não dá para vencer se você se abala muito fácil com notícias ruins ou com quando sai na desvantagem. Então acaba que, naturalmente, isso virou o meu instinto.

Então, eu acho que tem muito mais a ver com o meu perfil.

Agora, como converter esse instinto para negócios e fazer a empresa funcionar é uma outra história. Tem muito mais a ver com pesquisa, estudo e desenvolvimento de visão de negócios. E isso exigem muita de dicação.

Uma vez falei em palestra que os empreendedores, na minha visão, tem duas falhas: a primeira é a falta de capacitação e a segunda é pensar demais sobre um produto incrível e de menos sobre qual público querem atender, ou qual problema querem resolver.

A primeira parte de empreender é pensar com que público trabalhar. O produto você pivota, o serviço, você muda se for necessário. Agora o público não dá para ficar mudando o tempo inteiro. Se você souber como tratar uma certa audiência, entender quais os canais de aquisição, hábitos de consumo, comportamentos e dores específicos, é muito mais fácil adequar seu modelo de negócio e seu produto do que o contrário.

As empresas que hoje estão dando certo só estão conseguindo isso por ter definido bem um público que queriam atender.são empresas que hoje trabalham para um público definido.

Alfredo ganhador do prêmio E-commerce Brasil
Alfredo venceu a categoria Profissional de Tecnologia do Prêmio E-commerce Brasil.

Quando a empresa começa a crescer muito rápido, é necessário colocar uma camada a mais de gestão. O que você acha que é mais desafiador para a liderança dessas empresas? Que conselho você daria para acelerarem seu desenvolvimento como líderes?

Esse é um momento muito difícil, até por conta de ego também. Tanto na startup quanto na vida do empreendedor, você tem o ego como principal concorrente o tempo inteiro. Geralmente o empreendedor antes de ganhar dinheiro procura holofotes, destaque, essas coisas.

Tem empreendedor que acaba se iludindo com o valuation da empresa depois de uma rodada de investimento. Dizem valer cem milhões de reais, por exemplo, mas não porque esse é o valor de fato, e sim por ser o parâmetro que se toma para definir a quantos por cento da empresa o investimento vale. É nesses momentos que o empreendedor se deixa levar por uma métrica de vaidade.

Então meu concelho é não se deixar ser levado pelo ego nesse momento de crescimento. O segundo conselho é encontrar pessoas que você possa confiar e delegar autoridade. Essa pode ser a parte mais difícil, ainda mais se o empreendedor tiver um perfil centralizado, como era o meu caso.

O meu desafio foi encontrar pessoas com perfis diferentes que complementassem o meu e dessem um equilíbrio para a empresa.

Como você resolveu esta questão da centralização? Você tomou como base as experiências de outros?

Na verdade essa virada de chave veio com a mudança de escritório. Eu percebi que não teria mais como dar conta de tudo e resolvi focar naquilo que era prioridade, que poderia trazer os resultados mais expressivos. Então tive que aprender a delegar as responsabilidades e passei a fazer reuniões semanais com os gestores. Além de ter um grupo de whatsapp para sempre me manter informado e em contato caso precisassem de mim.

Depois comecei a me forçar a não ir para o escritório. Porque sempre que eu ia, todas as pessoas vinham falar comigo e o meu dia passava sem que eu pudesse resolver minhas prioridades. E era normal que isso acontecesse, já que as pessoas tinham se habituado com meu comportamento de centralizar e tentar resolver tudo.

Então agora eu monitoro tudo de longe. Mesmo quando eu estou no Rio eu evito de ir ao escritório exatamente para forçar a independência do pessoal. Algumas pessoas falam que se eu fosse todos os dias o resultado poderia ser diferente. Até poderia, mas se formos partir do princípio das possibilidades, então tudo na vida poderia ser diferente.

Time da Xtech em clima de natal
Time da Xtech em clima de Natal

Eu não indo, tenho mais qualidade de vida, consigo buscar mais equilíbrio, consigo ter mais criatividade.

Quais os erros mais comuns que você vê líderes inexperientes cometendo, inclusive que você mesmo pode ter cometido?

Eu falo que a melhor metodologia atualmente é: faça rápido, aprenda rápido e refaça rápido... A maioria dos empreendedores e das pessoas fazem isso naturalmente.

A questão é que nem todas as pessoas aprendem. Elas fazem, erram e fazem de novo. E isso acaba virando teimosia em vez de resiliência.

Ser resiliente é você fazer alguma coisa de formas diferentes até acertar, que é completamente diferente de ser insistente. Eu acho que isso talvez seja o maior erro de muita gente.

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Recomendo muito a leitura de um post incrível do Alfredo: Importância do e-commerce de nicho para ter sucesso na internet.

Gostou da entrevista? Mê dê seu feedback ou sugira outras pessoas para serem entrevistadas pelo email mariangela@mariangelaguerra.com.br

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Mariângela Guerra

Mariângela Guerra

Psicóloga especializada em ansiedade com objetivo de ajudar profissionais ambiciosos a lidarem com alta pressão e aumentarem seu desempenho profissional.

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