Como controlar a ansiedade na primeira experiência de liderança

É comum a carência de lideranças nas empresas. Ainda mais em startups de crescimento acelerado, porque exige um dinamismo na liderança acima da média. Para suprir essa demanda, muitos negócios têm buscado como caminho a promoção de seus melhores profissionais técnicos, que vão ter sua primeira experiência de gestão.

O que acontece muitas vezes, porém, é que esses profissionais não necessariamente performam bem no novo cenário. Afinal, ser bom técnico nem sempre significa ser bom gestor. Independentmente do motivo específico da queda de resultados, lidar com as cobrança da gestão pode se tornar uma imensa fonte de ansiedade. Então, nesse post, vamos entender mais a fundo a relação existente entre liderança precoce e ansiedade, bem como contorná-la.

Desafios da liderança

A liderança envolve competências e responsabilidades diversas e interdisciplinares como inteligência emocional, boa comunicação, habilidade para resolver problemas rapidamente, dentre muitas outras (como vimos no texto por que a terapia pode ser uma arma secreta no seu desempenho profissional). Agora, vamos explicar especificamente as principais:

Delegar novas responsabilidades

É por meio do líder que chegam as novas demandas de determinada área, e através dele que devem ser distribuídas para cada um dos membros do time. Para realizar essa tarefa da forma mais efetiva, ele precisa saber de forma acurada para quem entregar determinada tarefa de acordo com a habilidade e perfil de cada um de seus liderados. É papel do líder comunicar o que precisa ser entregue de forma bem clara e cobrar dos responsáveis.

Na prática, porém, essa tarefa se torna ainda mais complexa. Questões urgentes e os famosos incêndios costumam “aparecer do nada”. Isso exige uma a capacidade de gerenciar bem as crises, sem perder de vista os prazos e metas, que quase sempre são apertados.

Assim, uma delegação de tarefas bem feita é diretamente proporcional aos resultados, o que faz dela uma função extremamente importante para um bom líder.

Gerir pessoas com personalidades e necessidades diferentes

Um mesmo time pode envolver pessoas de personalidades e necessidades diferentes. Algumas pessoas são introvertidas, outras extrovertidas, umas gostam mais de autonomia, outras mais de maior supervisão, umas são mais enxutas, outras mais perfeccionistas e assim por diante.

Essa diversidade, inclusive, pode e deve ser o ponto forte de um bom time.

Ao mesmo tempo, essa diversidade traz um desafio de flexibilidade e adaptação para o líder ao ter de gerir o relacionamento com cada liderado. Assim, é preciso bastante empatia e conhecimento para manter cada um desses perfis motivados e para lidar com possíveis conflitos.

Pressão por parte dos superiores e dos liderados

O gestor geralmente está no meio de campo entre a diretoria e os contribuidores individuais. De um lado seus líderes exigindo prazo, metas, resultados; do outro, os liderados pedindo melhores condições de trabalho, reconhecimento e por aí vai. Saber lidar com essas demandas, dar sugestões e tomar atitudes para que ambas as partes fiquem satisfeitas, definitivamente, não é fácil.

Assumir a responsabilidade

Mesmo que o líder tenha dado conta de delegar responsabilidades, gerenciar bem o time e de ter equacionado de forma inteligente as necessidades da diretoria e de seus liderados, se algo der errado, a responsabilidade ainda continua sendo dele.

O líder deve ter coragem para assumir isso diante dos superiores e repassar o feedback aos colaboradores, ensinando-os como melhorar na próxima oportunidade.Isso é muito importante para motivar a equipe e para que ela não se sinta paralisada pelo erro.

O que é ansiedade e o que ela gera

Ansiedade é uma emoção negativa que se manifesta através da expectativa de que o pior pode acontecer a qualquer momento. Com isso, a indivíduo ansioso apresenta maior vulnerabilidade ao ambiente e às pessoas. Ela também tende a interpretar as situações sociais e seu próprio desempenho com pouca acurácia, o que as torna ainda mais sensíveis ao estresse do ambiente. Na prática, isso se reflete em sintomas como distúrbios de sono, pânico, nervosismo, fadiga, boca seca, nódulo na garganta, sudorese, tremores e coração acelerado.

A condição de primeira liderança é um prato cheio para a ansiedade. Isso porque o contexto do profissional passa a ser marcado por preocupações em relação às novas metas, imagem que vai passar para a empresa e a necessidade de ganhar o respeito do time. O perigo disso é que os sintomas cognitivos desse quadro podem ser particularmente prejudiciais ao desempenho dele mesmo, justamente o contrário daquilo que deseja.

A seguir, vamos explorar com maior profundidade os principais problemas de ansiedade que esse primeiro líder passa a ter:

Dificuldade de concentração

A ansiedade tira a concentração do momento presente. Dessa forma, o foco fica sempre no futuro ou no passado, ao invés do agora. A sensação de perigo que essa emoção dispara no cérebro faz com que o sistema nervoso acelere seu funcionamento. Assim, os profissionais passam a desperdiçar muita energia mental, o que aumenta as chances de cometerem erros que não cometeriam em sã consciência.

Desde a falta de perícia na análise de relatórios que vão dar o norte das próximas ações, até não estarem plenamente presentes para atender as necessidades de seus liderados nas conversas de um a um – apenas para mencionar poucas ocasiões do dia a dia – a soma desses pequenos eventos pode gerar problemáticas no exercício da liderança.

Incapacidade de lidar com dificuldades

Quando o líder fica ansioso, aumenta o nível de hormônios responsáveis pela aceleração do organismo, dentre eles a adrenalina. Isso desencadeia um constante estado de medo, fazendo o cérebro achar que está constantemente em perigo. Assim, o organismo mantém constantemente um estado acelerado, diminuindo a resiliência e provocando uma incapacidade de lidar com dificuldades.

O principal valor que um líder gera numa equipe é justamente remover qualquer tipo de barreira para que seus liderados possam performar no nível esperado. Muitas vezes isso significa lidar com várias dificuldades, ou seja, a ansiedade só tende a atrapalhar o desempenho dele.

Irritabilidade e nervosismo

Quando você ouve ou vê que existe algum tipo de ameaça próxima, sinais nervosos enviam mensagens rápidas ao seu cérebro para deixá-lo mais alerta. Como consequência, o hipotálamo produz o cortisol, o hormônio do estresse. Tudo isso só faz aumentar a probabilidade de irritação e nervosismo.

Nesse contexto, um líder nervoso e irritável geralmente vai ter grandes dificuldades em passar credibilidade ao time. O time depende muito da autoconfiança e centramento do seu líder para performar bem. Se ele não tem condições de transmitir essa confiança e serenidade, o clima de trabalho pode se deteriorar e a produtividade também.

O ciclo vicioso da ansiedade

A ansiedade é uma emoção que se retroalimenta. Em outras palavras, cada um dos seus sintoma alimenta outro sintoma de forma cíclica, o que tende a aumentar ainda mais a ansiedade. O sentimento de medo, por exemplo, é uma reação natural do nosso corpo, que é ativada mediante o perigo e cessada depois que ele passa. Porém, quando vira uma condição frequente, torna-se ansiedade.

A primeira etapa da instalação da ansiedade no sistema se dá através de fatores externos e internos que afetam a pessoa. No contexto da liderança, podem ser mudanças rápidas na empresa, metas agressivas, crescimento acelerado e etc.

Seus órgãos sensoriais, então, percebem um perigo em potencial e começam a se preparar para responder a ele. Você se torna mais ciente, suas pupilas dilatam e a audição se torna mais sensível. Esse é um estágio preparatório para a próxima etapa, que é chamada em inglês de fight or flight (lutar ou fugir).

É aqui que você reconhece o problema e decide se foge ou se lida com ele. Em ambos os casos, o corpo se prepara para a ação para uma das duas ações. Sua mente é convencida de que o perigo é real e seu corpo começa a responder, produzindo pensamentos e sensações que são os sintomas da ansiedade. Chega-se a um estágio em que corpo e mente estão trabalhando incessantemente para combater o perigo. Assim são produzidos hormônios como cortisol e adrenalina, que devem ajudar a combater o monstro.

Esse lançamento de hormônios é resultado do medo do perigo que percebemos. Mesmo se quiséssemos, não conseguiríamos pausar essa injeção de substâncias no nosso organismo, porque acontece imediatamente na hora que sentimos o medo.

É nessa parte do ciclo que a pessoa que sofre de ansiedade começa a sentir o coração bater mais rápido, a respiração curta e o corpo trêmulo. Seu corpo produz sensações e sua mente as percebe também como perigosas.  O cérebro registra o perigo causado por essas sensações e envia sinais para o seu corpo se preparar para o perigo mais uma vez. Quando você percebe os sintomas como perigosos, também fica com medo deles. Assim, sua mente reage com uma resposta de ansiedade, que cria mais sintomas.

E o ciclo continua.

Formas de controlar a ansiedade

Para quebrar o ciclo da ansiedade existem várias táticas. Sobretudo, trabalhar em cima das causas reais é o que mais funciona de forma sustentável. Ao mesmo tempo, existem algumas ações que podem ajudar a aliviar os sintomas e já ter resultados no curto prazo.

Psico-educação

Psicoeducação ou educação psicológica é o mesmo que ensinar ao paciente sobre a patologia, os tratamentos, a capacidade de desenvolvimento de habilidades esperadas, prevenção de recaídas e convivência harmônica.

Dentro dela, algumas técnicas de relaxamento provocam resultado imediato de diminuição de ansiedade:

Respiração diafragmática

A técnica da respiração diafragmática consiste em estabelecer um outro ritmo fisiológico simplesmente por meio de uma respiração mais profunda. Ao invés de manter a respiração rasa, inspire e expire de forma mais completa para solicitar mais o diafragma na respiração. Essa técnica é muito usada durante a meditação e em exercícios de ioga, por exemplo. Nesse estado, a ansiedade desaparece ou pelo menos enfraquece. Uma ressalva importante é não respirar de forma muito rápida para evitar hiperventilação.

Relaxamento muscular progressivo de Jacobson

Consiste em avaliar e realizar sistematicamente tensões nos diversos grupos musculares para depois relaxá-los. Por outro lado, tensionar determinados grupos de músculos pode gerar condicionamento de alerta no organismo, assim como na terapia de exposição interoceptiva.  Por isso, é importante ter o acompanhamento do psicoterapeuta para executar a técnica da forma certa.

Pedir feedback do seu líder e liderados

É importante saber como seu trabalho é percebido por aqueles à sua volta, tanto líderes quanto liderados, para que você consiga ajustar suas expectativas e a dos demais. Muitas vezes achamos que nosso trabalho não está bem feito ou que o nosso comportamento não está adequado, mas, ao ouvirmos feedbacks, podemos chegar na real dimensão da situação. Às vezes, as pessoas nem perceberam um certo comportamento que a pessoa ansiosa acha preocupante. Para conseguir maior proveito do feedback, é importante não levar as críticas para o lado pessoal, filtrando o que não é pertinente e trabalhando para melhorar o que for.

Alinhar metas com o time

Você sentirá menos pressão ao ter certeza de que todo seu time está trabalhando em busca dos mesmos resultados. Com a tranquilidade de que o time está trabalhando nos mesmos objetivos, você será capaz de delegar mais tarefas e assim focar em atividades mais estratégicas do que operacionais. Além da menor preocupação com a operação, colocar energia na estratégia tende gerar um impacto positivo na redução da ansiedade do time em geral, porque abre espaço para a melhoria da rotina de trabalho como um todo.

Fazer exercícios físicos

A prática de exercícios libera serotonina, um neurotransmissor que ajuda a lidar com a ansiedade. Ele consegue fazer isso através da redução dos níveis de cortisol, que gera o efeito antagônico. Além disso, praticar exercícios tem uma lista sem fim de benefícios para a saúde, que certamente influenciam de maneira positiva na sua qualidade de vida em geral.

Entender a raiz do problema

Ter formas rápidas de combater a ansiedade é importante. Porém, mais importante do que isso, é ir na raiz do problema e descobrir a fonte da ansiedade gerada. Sem dúvidas, “arrancar o mal pela raiz” é a forma mais efetiva de resolver o problema.

Nesse sentido, a psicoterapia também é uma grande aliada. Essa técnica auxilia o paciente a observar os próprios sentimentos, a avaliar suas crenças e pensamentos que estão influenciando o seu agir e o seu humor. Entre as sessões e após o fim da terapia, é esperado que o paciente seja capaz de se autoavaliar e ter independência para que possa lidar com as próprias dificuldades e problemas futuros de forma consistente.

Conclusão

Ter a oportunidade de atuar na gestão é uma experiência única de desenvolvimento pessoal e profissional. Para profissionais de gestão de primeira viagem que eram bons técnicos, geralmente ela vem com uma boa dose de ansiedade, que se não gerenciada, pode comprometer a performance e saúde mental do profissional.

Por isso, olhe para dentro e não tenha medo de procurar ajuda assim que os sintomas da ansiedade começarem a aparecer. Se você já está se sentindo ansioso, procure um psicólogo especializado que possa lhe orientar sobre a melhor forma de lidar com seu desafio.

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Mariângela Guerra

Mariângela Guerra

Psicóloga especializada em ansiedade com objetivo de ajudar profissionais ambiciosos a lidarem com alta pressão e aumentarem seu desempenho profissional.

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